Salvador, 20/01/2010 - A música baiana intitulada “axé music” vem passando, ao longo dos seus 25 anos de existência, por intensas transformações. Desde o surgimento – em meados dos anos 80, com Luís Caldas e seu “Fricote” – até os dias de hoje, muita coisa mudou. Em todos os sentidos.
No início, havia uma maior preocupação com as letras – em que pese a pobreza de muitos arranjos e a quase total improvisação (leia-se, ausência de profissionalização). Bandas como a Mel e a Reflex’us estouravam nas paradas de sucesso com letras que popularizavam verdadeiras aulas de História e Geografia (vide “Faraó” e “Canto para o Senegal”, só para citar 2 exemplos). O Cheiro de Amor irradiava a energia e carisma de Márcia Freire – hoje relegada ao ostracismo midiático –, o Chiclete com Banana despontava como grupo legionário que é até hoje e surgiam, na linha do horizonte, futuras estrelas da constelação baiana, como Carlinhos Brown, Bell Marques, Netinho e Durval Lelys. Sarajane e sua “Roda” brilhavam na Meca do estrelato da época, o extinto “Cassino do Chacrinha”, da Rede Globo. O Olodum ecoava suas batidas do Pelourinho para o mundo.
Mas o melhor estava por vir. Foi o fim da década de 80 e início da de 90 que proporcionou o surgimento/consolidação dos frutos de uma das melhores fases (senão a melhor) do axé: Margareth Menezes, Daniela Mercury e Ivete Sangalo davam o ar da graça com a apresentação de trabalhos/interpretações memoráveis. Era, enfim, o ápice do axé.
Durante toda a década de 90, o que se viu foi a hegemonia nacional do “axé music” – que, ao lado do pagode do Sudeste e do sertanejo do interior do Brasil, dominou o mercado fonográfico brasileiro desta período. O grupo “É o Tchan” (originariamente “Gerasamba”) vira mania nacional, com suas coreografias sensuais e letras de duplo sentido. Nomes como Carla Visi (uma das melhores cantoras do movimento), Gil (hoje Gilmelândia, dona de uma belíssima voz), Saulo Fernandes, Tatau (Araketu) e Xexéu/Patrícia/Ninha (Timbalada) vêm reforçar o movimento baiano, cada vez mais forte e dominante.
Mas as críticas – assim como o sucesso – não paravam de crescer. Artistas de outros estilos musicais reclamavam, constantemente, do “monopólio” exercido pelo estilo baiano. As letras, temáticas e melodias, nem sempre aceitas por significativas camadas da crítica especializada (sobretudo do Sul do país), incomodavam a muitos, sobretudo os integrantes das elites intelectuais.
Já na primeira década deste século (isto é, a partir do ano 2000), outros nomes vieram agregar-se aos já consolidados: Claúdia Leitte, Xanddy, Alinne Rosa, Tomate, só para citar alguns. Todavia, a partir desta mesma década, muita coisa mudou. Com o império da pirataria e a monotonia do estilo, o “axé” declinou, e muito – tanto em vendas como em execução. E é aí que se percebe uma mudança significativa no perfil do gênero musical: o crescimento e popularização do “pagode-povão”, que ora consagra letras pornográficas, ora ridiculariza a mulher negra e pobre, ora retrata o cotidiano dos guetos e periferias. E é nessa “onda” que despontam nomes como Eddye (ex-Fantasmão e hoje Ed City), Léo (Parangolé), Márcio Vitor (Psirico “do Povão”) e O Troco (“Todo Enfiado”, a professora, o Youtube...).
O que se percebe, atualmente, é o domínio do “pagodão” sobre as camadas populares, o que vem “empurrando” o mais tradicional “axezão” para as classes médias – que, contudo, não têm ficado imunes ao batuque do gueto: vide, por exemplo, o sucesso absoluto dos ensaios do Parangolé na Área Verde do Hotel Othon, reduto das patricinhas e mauricinhos descolados da capital baiana.
Enfim, resta saber se isso tudo é bom ou ruim. Ou, por outras palavras, se o “axé music” é Deus ou o Diabo. Polêmicas e opiniões à parte, certo mesmo é que a questão apresenta dois lados (de uma mesma moeda). Com a explosão do axé, a Bahia ganhou em visibilidade, incremento turístico e profissionalização do Carnaval de Salvador (considerada a maior festa popular do mundo). Mas não se pode negar que nenhum monopólio artístico é positivo – afinal, o sol nasce para todos.
Argumentar que o gênero musical só produz “porcarias” é decair no campo da mentira. O “axé music” já produziu e ainda produz pérolas da Música Popular Brasileira, e disso todo mundo sabe. Além do mais, falta de qualidade não é exclusividade da música baiana.
Por outro lado, é visível que o gênero vem passando por uma crise criativa. Será que a excessiva profissionalização (ou seria ambição?) pasteurizou o movimento? Ou será que a fonte da criatividade secou? Tirem vocês mesmos suas próprias conclusões...
Que surjam mais Ivetes Sangalos, nos convidando a entrar em suas casas ao lado de Marias Bethânias e Marcelos Camelos. Ou Danielas Mercurys com suas Canibálias. E que os anjos (do céu) digam Amém. Sob a bênção do Senhor do Bonfim.
Uma brilhante síntese de parte da nossa "MPB" música popular baiana. PARABÉNS!
Janaina Mascarenhas